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Vermelho Amargo - Bartolomeu Campos de Queirós

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 25 de fev. de 2022
  • 2 min de leitura

Primeiro livro que leio de Bartolomeu e já estou extremamente encantada pela escrita sensível e bela de um assunto profundamente doloroso como o luto. Vermelho amargo é um livro autobiográfico de uma parte da infância do autor, precisamente a partir de pouco tempo em que sua mãe faleceu e ainda criança tem que lidar com esse sentimento de perda. Bartolomeu se utiliza da escrita poética com grande maestria, e a aplicação metafórica das palavras é evidente em toda a obra, que com menos de 70 páginas te transporta para um tempo e espaço inerentes à vida do autor.


No livro o narrador nos apresenta aos afazeres simples em família com seus irmãos, pai, madrasta e dos vizinhos, mas que tudo tem um grande significado em sua vida, o mais específico deles é a forma como sua madrasta fatia o tomate, mesmo não sendo algo que pode delimitar como certo ou errado, o garoto sente uma grande dor ao presenciar esse ato, já que sua mãe, o fazia de forma bem diferente, e para ele, faz um paralelo entre o que é o amor de sua mãe e a presença indiferente da nova esposa de seu pai.


"Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava.[...] Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa. E barqueiros eram as sementes, vestidas em resina de limo e brilho. Pousado sobre a língua, o pequeno barco suscitava um gosto de palavra por dizer-se. Há sim, outras palavras mais doces que o açúcar." (pags. 14-15)

Diferentemente de sua madrasta que fatiava o tomate em rodelas bem finas. Esse ato para o garoto, de total desvinculamento com a rotina de sua mãe, torna o fruto algo totalmente ruim, que ele mesmo relata que comia logo para se ver livre das fatias em seu prato.


"A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. [...] Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. (p. 9)

O autor se utiliza de coisas simples para fazer uma analogia de como o garoto se sentia, já que é quase impossível para ele expressar em palavras diretas, por isso o uso de metáforas faz com que possamos entender um pouco mais do sentimento de solidão do garoto. A ausência da mãe faz com que ela se transfigure em cada pedacinho da casa. O livro é repleto de suas confissões, que chegou a me apertar o coração em suas descrições. Esse com certeza é daqueles livros que a gente não se cansa de ler e provavelmente será muitas vezes relido.


Vermelho Amargo

Autor: Bartolomeu Campos de Queirós

Editora: Global Editora

Ano: 2017 - 2 ed. /2020 - 2. Reimpressão

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