Uma Duas - Eliane Brum
- Jacque Spotto

- 5 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Fico impressionada com a vasta quantidade de escritores que conheço a pouco tempo que são admiráveis, que escrevem assuntos tão relevantes e quase não é visto muito engajamento na crítica e na mídia. Nos últimos meses conheci a obra de Eliane Brum, uma jornalista que nasceu em Ijuí no Rio Grande do Sul. Também escritora, cronista e ainda foi co-diretora de alguns documentários, manteve uma coluna na Revista Época e atualmente no jornal El País, e além disso, carrega alguns prêmios de Jornalismo no currículo.

Fiquei surpresa que uma jornalista tenha criado uma obra tão única, da mesma forma que é real e crua ela também toca a alma humana. Uma duas é uma de suas inúmeras obras, porém, essa, diferentemente de todas outras, se trata de um romance. Sua leitura não é uma tarefa fácil para a maioria, um dos grandes motivos é por adquirirmos uma carga cultural em que a relação de mãe e filha geralmente é vista como uma dualidade sagrada, envolta em amor e compreensão e encarar uma história com uma visão desromantizada, tira o leitor de sua zona de conforto.
"Para mim nunca houve um cordão umbilical que pudesse ser cortado. Só a dor de estar confundida com o corpo da mãe, de ser carne da mãe." (BRUM, posição 92, 2018)
No livro temos como protagonista Laura, que também é a narradora da história, pelo menos em boa parte, e aqui ela conta a história de seu processo de escrever uma ficção que está relacionada a sua vida, principalmente com a relação conflitante e peculiar com sua mãe, Maria Lúcia. Desde criança Laura foi criada de forma diferente das outras crianças, com um certo excesso de proteção e afastamento das outras pessoas, até mesmo, o distanciamento de seu pai por parte de sua mãe, que nunca deixava-os sozinhos, e durante todo esse relato vamos criando uma certa aversão a sua mãe Maria Lúcia, porém em um momento da história, a própria personagem da mãe ganha "voz", ou melhor, "escrita", pois começa a relatar seu lado da história em cartas. Nesse momento passamos a perceber os fatos que levaram sua mãe a tais comportamentos. Não como uma justificativa, é lógico, mas como uma forma de saber porque tais motivações foram feitas e por quê.
A estética narrativa reforça designar divisões da fala do narrador: em negrito - a escrita do livro de Laura, em itálico - a escrita das “cartas” de Maria Lúcia, e em fonte normal para indicar o narrador principal, que também é Laura. Em vários momentos o narrador tenta reforçar que o livro é apenas uma ficção, um exercício de sua escrita, ou seja, uma ficção dentro de outra.
Já no início do Romance, a narradora deixa explícita sobre a fidedignidade da história:
“Depois da primeira palavra não me corto mais. Eu agora sou ficção. Como ficção eu posso existir. Esta é a história. E foi assim que se passou. Pelo menos para mim.” (BRUM, posição 24, 2018).
Se nos atentarmos para a narrativa, mesmo com todos os conflitos, e mesmo Laura criando uma ficção para libertar tudo que gostaria de fazer para se livrar de sua mãe, ainda assim, no desfecho da história, Laura opta pelo seu bem, como uma inversão de papéis, mesmo que figurativa. Laura criou uma ficção para poder se vingar de sua mãe, mesmo assim, quando tal momento chega ela muda de perspectiva, o momento passa a ser um momento único, de redenção entre as duas onde elas se unem, em silêncio, com amor.
“Estou exaurida. Escrever ficção é como emprestar meu corpo para mim mesma.” (BRUM, posição 1699, 2018).
Talvez essa seria a história que Laura almejasse para si, mas já no final sabemos que todo aquele momento se fez somente na ficção em que ela escrevia, ela não se vingou de sua mãe e também provavelmente não se redimiu com Maria Lúcia, mas em sua história, ela pode colocar o seu sentimento reprimido de vingança na ficção, como uma forma das duas finalmente se entenderem. Laura cria até mesmo um espaço em seu livro para que sua mãe explique seus motivos, como uma maneira também da própria narradora buscar um efúgio para perdoar sua mãe. A busca pelo idílio de Laura seria que mesmo perdendo a mãe (a matando) ainda assim se sentiriam libertas do que lhes aprisiona.
Uma coisa é certa, se você conseguir ultrapassar as primeiras páginas deste livro, irá querer devorá-lo até o final. Ele traz imagens gráficas, você consegue sentir a angústia, a tristeza, a perplexidade traduzida em algo quase palpável. Eliane tem esse poder na escrita, talvez por sua vasta experiência no trabalho jornalístico em que a função é criar na narrativa algo que o leitor conseguisse "presenciar" o fato acontecido. Mas mesmo com tal visceralidade, Eliane vai além, ela consegue revelar o que está mais profundo no sentimento humano, no ser, em sua individualidade.
Referência Bibliográfica
Uma Duas
Escritor: Eliane Brum
Editora: Arquipélago Editorial LTDA
2º edição




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