Rei Revés - Evandro Affonso Ferreira
- Jacque Spotto

- 7 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Para quem está acostumado com leituras lineares, onde há sempre uma história a ser acompanhada com: plot twists, tramas, clímax, intrigas, entre outras técnicas utilizadas nas narrativas, com certeza achará um tanto singular a leitura deste pequeno-grande livro; (esse composto de duas palavras com hífen é uma das peculiaridades encontradas na escrita de Evandro Affonso, entre outras que irei citar mais a frente).

Caso fosse contar de forma superficial do que se trata o livro "Rei Revés", poderia simplesmente falar que se refere a um rei que perdeu seu neto e que se encontra em profunda tristeza por essa morte prematura da criança. Mas vai muito além de um simples acontecimento em torno deste personagem. Se trata da desolação causada pela dor do luto, o sofrimento de quem só pode sentir é o próprio personagem com uma tentativa extremamente complexa pelo narrador de tentar expor, para nós leitores, tal angústia do Rei.
Lembro a leitura que fiz do livro de entrevistas de Hilda Hilst: "Fico besta quando me entendem", quando ela diz: "Sabe o que é, eu tenho uma verdadeira ojeriza pelo relato, pela história factual. Pode ser até uma obra-prima, mas eu não tenho [nada] a ver com isso. Me interessam mais os estados emocionais e passionais, porque eles fazem deslanchar atitudes inesperadas".
E é exatamente assim como Hilda se interessa pela narrativa, encontramos na obra Rei Revés de Evandro Affonso, aqui sabemos pouco sobre o personagem, não há descrições físicas, temporais e geográficas, os personagens não têm nomes próprios, são denominados metaforicamente por suas qualificações: "Rei Revés", "Narrador desta miniepopeia", "menino-tabaréu", o que mais interessa ao narrador é o estado emocional e psicológico, e este estado que o narrador tenta exprimir em sua narrativa. O autor mergulha nessa busca do "eu" do rei, estes "estados emocionais" que interessavam a Hilda é o que desafia o escritor a tentar expressar. E o narrador aqui de várias formas, com analogias de personagens da literatura clássica, tragédias e epopeias gregas como: Ulisses, Antígona, Édipo, Píndaro, Tirésias, entre outros, tenta traçar um paralelo com o personagem, em uma forma de monólogo teatral, o narrador conversa com o leitor, suplica aos grandes escritores Sófocles e Eurípides inspiração de como colocar em palavras o mais profundo da dor humana.
"Ah, Sófocles! Ah, Eurípides! Vocês, meus ilustres mestres, apenas-somente vocês saberiam entrar nos escaninhos, nos sumidouros dessa tragédia íntima: autor desta miniepopeia não conhecerá nunca-jamais tantas inúmeras palavras-escafandro." (p.32)
As palavras utilizadas por Evandro são cuidadosamente bem inseridas ao texto, como se cada vocábulo fosse muito bem pensado para fazer parte de determinada frase. Sua escrita tem um vocabulário riquíssimo, isso lhe custará alguns minutos de pausa para buscar o significado de certas palavras ou termos. Há também a constante repetição de frases, o que parece até gerar uma certa analogia com o próprio estado do personagem, pois ele está em o que parece ser um quarto fechado, e remoendo sua dor, quase um loop, um sentimento maçante e constante. Evandro também utiliza consecutivamente o uso do hífen para criar novas palavras, talvez uma forma de nominar sentimentos que apenas com uma palavra seja impossível ser expressada.
Não há como delimitar um gênero a essa obra, o próprio narrador a denomina miniepopeia, ela tem indícios estéticos poéticos que se refere a saga de um personagem, Rei Revés, mas sua saga é sobre essa condição melancólica de conseguir superar, ou não, a perca de um ente querido, é uma escrita bem correspondente a literatura contemporânea.
Ler este livro foi realmente um desafio, apesar de ter apenas 127 páginas, esta não é uma obra que você irá ler "em uma sentada", o leitor terá que estar imerso em sua composição, buscar entender as entrelinhas e compreender suas comparações fora da obra. A leitura superficial não cabe aqui, o escritor te incita a buscar respostas, mesmo que não haja soluções.
Boa Leitura!
Rei Revés
Escritor: Evandro Affonso Ferreira
Editora: Record
1º edição - 2121




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