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Perpétuo - Daniele Rosa

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 25 de ago. de 2021
  • 3 min de leitura

Conheci o livro pelo canal da Gisele Eberspacher, e por seu comentário fiquei bem interessada na premissa. Pesquisei para poder comprar e não consegui encontrá-lo, comentei no vídeo onde poderia adquiri-lo e a própria escritora me respondeu, realmente eu não poderia achá-lo à venda porque o livro era feito por ela! Sim, ele é artesanal, feito em zine e com o título bordado. Não sei vocês, mas o material feito com as próprias mãos do artista/escritor ganha um significado maior. Neste ano ainda de 2021 ele será lançado pela Editora Urutau.


Mas vamos falar do que se trata o livro "Perpétuo"; ele não tem uma narrativa tradicional da forma textual, utiliza de vários espaçamentos, algumas folhas pretas separando os textos e frases em caixa alta e negrito, parecidos com os que são utilizados nos poemas visuais. Mas toda essa definição estética não está como mera ornamentação, ela tem uma carga de significado muito grande, pois complementa as emoções da personagem e do próprio tema abordado, que é a morte.




A personagem (sem nome) se depara com a morte de várias formas, com pessoas variadas e de momentos diferentes em sua vida. O livro é escrito como um diário em 5 partes e que sugere que a personagem o escreveu no mesmo dia em momentos diferentes. Já de início há uma cena em que ela está em um enterro e todo aquele ambiente triste e tangível é relatado, umas das cenas é quando quebram o pedaço do túmulo para colocar o caixão. Mas o que fica em seu pensamento é onde estaria a filha (já falecida) daquela mulher que estava sendo enterrada, entende-se que se trata de um jazigo onde se enterram mais de uma pessoa, geralmente da mesma família. E ali estaria também o corpo de uma outra pessoa, no caso, da filha da mulher que estava sendo sepultada.


Aquele pensamento de onde estariam os restos da filha da morta ronda pela cabeça da personagem fazendo-a lembrar de outros momentos que ela já havia presenciado como: a morte do pai e as exumações feitas por seu marido de três pessoas diferentes e assim ela vai relatando em seu diário.


A descrição da autora é bem direta e explícita, não há floreios para descrever o que se passa. E nos faz pensar realmente como é o ritual de um velório e enterro, se refletirmos bem, há um cuidado muito respeitoso com o corpo, as flores, as roupas a serem usadas pela última vez, a dor do enterro, tudo aquilo que tem mais haver com os que ficam do que com os que se vão, uma forma de amenizar a dor do momento é seguir aquele ritual do velório. E a personagem lembra muitos momentos da forma como é feita a exumação de um corpo, muitas vezes retirados e colocados em um pequeno saquinho e colocado no canto para dar lugar a outro que já teve tanto cuidado um dia como ele. A exumação é algo solitário e renasce a dor do dia da morte.


"Famílias relatam que o dia da exumação é considerado um dia de funeral"

Assim como no título do livro, a única coisa que se torna perpétua são as lembranças de quem fica, toda aquela matéria quem um dia foi uma pessoa se torna apenas poeira, os nomes com seus sobrenomes, um dia que foram referentes a alguém, agora, em um cemitério se tornam apenas números que se misturam com milhares de outros, perdem assim suas identidades, se tornam nada mais do que corpos que com o tempo irão se deteriorar.


Apesar de ser um livro curto, não é fácil de se ler em "uma sentada", principalmente para pessoas mais sensíveis, eu li em momentos espaçados, é difícil ainda mais neste momento de luto que estamos vivendo em decorrência da situação pandêmica mundial, não há como não pensar naqueles enterros coletivos que todos presenciaram, e que ainda estão ocorrendo, e por mais tristes que sejam, acabam virando números e mais números, perdendo a individualidade da vítima, e tornando um coletivo em decorrência a um mal comum.

"Todos os nomes serão esquecidos"

Perpétuo

Escritora: Daniele Rosa

Editora: Conserva Edições

2121


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