O que é tortura - Glauco Mattoso
- Jacque Spotto

- 19 de jan. de 2021
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É impossível dizer que a escrita de Glauco Mattoso não choque, não cause incômodo e reflexão a respeito do ser humano. Um assunto polêmico, mas não isolado e raro, um tema recorrente na história da humanidade: a tortura. Uma questão que frequentemente relacionamos a certas pessoas cruéis, mas, o que Mattoso expõe é que o ato de infligir a tortura pode estar presente em qualquer ser humano.
Mas quem é Glauco Mattoso? Chamado por muitos por "poeta maldito", em referência a Boccaccio, por se tratar de temas eróticos, fetichismos entre outros prazeres do ser humano, Pedro José Ferreira da Silva nasceu em 1951, mas, ironicamente, como mais uma forma de "brincar com a própria desgraça" como ele mesmo diz em entrevista ao programa "Provocações" em 2002, adotou o termo de glaucomatoso como seu pseudônimo, que é usado para designar portadores da doença de glaucoma.
Além desse livro não ficcional, Glauco tem uma gama de poemas, contos, sonetos, crônicas, ensaios, críticas literárias e livros em prosa, publicou trabalhos em revistas, ganhou o Prêmio Jabuti pela tradução do livro "Fervor de Buenos Aires" de Jorge Luis Borges. Hoje, publica seus textos digitalmente e mesmo cego, sua produção é extensa.
A estética de Mattoso é adversa a quase toda estética usual na literatura, um escritor que não está tão visível no rol de escritores populares, e até mesmo nesse ponto, sua estética é ligada a uma literatura marginal, a ser discutida e lida por aqueles que estão em um grupo suprimido na sociedade. Temos milhares de escritores que tratam na literatura o tema da tortura, mas com outra escolha estética, a de Mattoso é gráfica e tangível. Essa forma estética não “floreia” o que não é para se amenizar, ela é direta e submerge do que está escondida e descarna os sentimentos profundos do ser humano.

Nesse pequeno livro de 100 páginas, Mattoso faz um breve panorama sobre a tortura em decorrer da história e também de acordo com a localização greográfica, que como a tortura foi utilizada e por quais motivos de acordo com cada cultura, também discorre como foi inpirada nas Artes e criadas obras magníficas a partir de um tema tão sombrio como também perpassa o cinema e a literatura. Mas além da simples palavra tortura e o que ela nos remete quando pensamos no assunto, Mattoso vai muito além de especificar como um torturador aflige a vítima, ou quais os objetos utilizados, muito menos o julgamento dos atos. Há somente a exposição das ações do ser humano.
Além disso Mattoso expõe esse prazer do torturador em se tornar superior ao outro, o prazer de fazer com que o torturado seja humilhado e rebaixado a seus pés, o que para o escritor trata-se mais ainda do prazer sentido por causar a dor, a humilhação, da satisfação e como tais prazeres, sejam eles não serem aceitos na sociedade em que vivemos. Mas como assim? Lógico que não seria aceito a tortura de forma livre, mas não é esse o ponto que Mattoso quer conduzir. Para Mattoso, quando reprimimos nossos prazeres, o resultado desse desejo que está reservado em nós, se extravasa de outra maneira, seja ela por uma tortura física ou psicológica, de acometer no outro uma dor na carne ou na alma.
No livro “Manual do Podólatra Amador”, Glauco Mattoso é sujeito ao parceiro por um fetiche de submissão, ele permite tal sujeição a outro que gosta de infligir uma certa humilhação, isso lhes dão prazer, mutuamente, de forma consensual, e por mais estranho e até mesmo repugnante para alguns, para eles é algo natural. Assim, as formas de prazer não deveriam ser cerceadas, mas o convencionalismo na sociedade por uma padronização dos relacionamentos sociais, faz com que os desejos de cada um sejam contidos e tudo que acaba se tornando reprimido, em algum momento é exposto e esse desejo passa a ser submetido a outro, que não o aceitaria de forma consensual.
“Se conhecêssemos melhor e mais espontaneamente os mecanismos do prazer sexual; se pudéssemos escolher e usufruir as oportunidades; se canalizássemos a libido para as relações onde houvesse o mútuo consentimento das partes envolvidas, certamente satisfaríamos com maior frequência os nossos impulsos, sem necessidade de violentar a vontade do semelhante.” (MATTOSO, 1986, p. 93)
Mattoso trata esse efeito ainda mais profundamente, para ele, o ser humano tem esse encanto pela violência, não é algo de poucos, mas de muitos. Temos gosto por esportes violentos, fascínio por notícias catastróficas, nos divertimos com filmes com assassinatos e matanças, até mesmo comédias, rimos quando o personagem se dá mal. Todo esse prazer na violência é extravasado nos meios em que vivemos. Vemos esse sadismo escancarado nos tempos sombrios que vivemos hoje, é só reparamos nas várias alegações de nossos próprios governantes e seus fiéis seguidores que banalizam a morte de milhares de pessoas, que sentem orgulho em exibir armas, onde repetem seus jargões de "bandido bom é bandido morto". Mas outra questão é: aquele que aflige a dor está sozinho? Ele está entre a minoria, ou apenas alguns não estampam suas caras para não serem julgados mas compartilham do mesmo prazer?
“Mas isto pode significar apenas que os meios de comunicação atendem às expectativas de uma audiência ávida de agressividade e vingança, e que é a própria opinião pública a mais propensa aos métodos violentos que ao pacifismo... Sim, porque o sadismo parece fazer parte do dia-a-dia do povão todo, desde o moleque que arranca as pernas do passarinho até o coroa que vai torcer na beira do ringue de luta livre, passando pelo jovem veterano que “trucida” os calouros no trote da faculdade. O inferno dos outros é comédia para os nossos olhos.” (MATTOSO, 1986, p.90)
Sua obra aborda aquilo que todos evitam falar, não por que não exista, mas porque talvez até mesmo nós queiramos mentir para nós mesmos que temos prazer pela ferocidade, deixamos que outros sejam julgados, e até mesmo julgamos por suas “barbáries”, desde que não saibam que o mesmo sentimento aflore em cada um de nós. A literatura de Mattoso é irônica pois desvenda no ser humano o quanto impostor podemos ser, pela falsa moral que buscamos a todo custo esplandecer para a sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MATTOSO, Glauco. Manual do Podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés. – 1 ed. São Paulo: All Books, 2006.
MATTOSO, Glauco. O que é tortura. São Paulo: Nova Cultural: Brasiliense, 1986.




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