O quarto branco - Gabriela Aguerre
- Jacque Spotto

- 6 de jan. de 2022
- 2 min de leitura
Aqui temos a personagem e narradora Glória, que assim como a própria escritora Gabriela Aguerre também nasceu no Uruguai mas veio para o Brasil ainda jovem, no livro não deixa explícita a data, mas pelo contexto histórico foi entre os anos de 1973 a 1985, período que ocorreu a ditadura uruguaia.
Glória e sua família (pais e irmãos) se fixaram em São Paulo, e aqui no Brasil, os pais com o tempo se divorciaram, os irmãos se casaram e tiveram filhos. Porém, já no início do livro descobrimos que nossa personagem teve um aborto espontâneo e não poderá mais ter filhos, e é nesse começo difícil que se inicia todo o seu sofrimento.

Ela se sente incompleta, uma angústia de não poder dar continuidade de uma parte sua, neste mesmo período ela perde seu emprego e seu pai se encontra internado. É uma enxurrada de emoções que cercam os pensamentos de Glória, dá a impressão que ela está fazendo tudo no automático enquanto reflete sobre sua vida, suas escolhas, sua família do Brasil e dos que ficaram no Uruguai, de sua infância e principalmente de sua irmã gêmea que faleceu ainda quando era bebê.
Nesse contexto Glória parte então para o Uruguai, talvez uma forma de se reconectar com sua terra natal juntamente com sua irmã gêmea morta que ficou no país, algo meio simbólico, como uma parte sua que tivesse se desconectado e agora ela poderia novamente se sentir parte de um todo, já que naquele momento ela se sentia vazia. A irmã morta é como se fosse um escape para algo que foi realmente parte dela em algum momento de sua vida.
"O vazio da inexistência é pior, muito pior. Se não posso ser mais, então o que eu sou? Por que essa sensação de mortalidade imediata?"
A narrativa é bem introspectiva e íntima, trata desse luto que várias mulheres passam quando sofrem um aborto, a chegada de um ser tão esperado que não será mais possível. Também o sentimento de não-pertencimento é evidenciado, acredito que pessoas que são obrigadas passivamente ou não a deixarem sua pátria é possível ter essa nostalgia da terra natal. Vi alguns comentários de pessoas que não gostaram do livro porque esperavam mais fatos sobre a ditadura uruguaia, e realmente, esse fato histórico no livro é apenas um pano de fundo, não é algo central no livro. Ele faz parte de um contexto para demonstrar o mais importante que é a dor da personagem e seus conflitos diante as adversidades que ela está passando. Para quem gosta de livros com fluxos de consciência e poucos diálogos tem uma grande chance de gostar desta história.
Boa leitura!
O quarto branco
Escritora: Gabriela Aguerre
Editora: Todavia
Ano: 2019




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