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Memorial de Maria Moura - Rachel de Queiroz

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 10 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

Terminei esse livro com vontade de reler, porque é aquele tipo de enredo que te prende e quanto mais você lê mais você quer avançar na leitura. Mas do que se trata o Memorial de Maria Moura? Assim como o próprio título sugere, são as memórias da protagonista que inicia desde a infância até sua fase adulta, mas ele não é um romance cronológico linear, pelo contrário, o livro inicia na fase que a personagem já desenvolveu praticamente toda a história que há por vir.


Seus capítulos são curtos e cada um deles é narrado em primeira pessoa pelo personagem que conta a história e todos esses personagens, em algum momento do livro, irão se encontrar com Maria Moura. Assim, sabemos a história do ponto de vista de cada um deles, são: Maria Moura, Beato Romano e Marialva; Tonho e Irineu têm seus relatos poucas vezes, mas sabemos de suas ações através dos relatos dos outros personagens principais.


Tudo se inicia quando Beato Romano, até então chamado de padre José Maria, chega à Casa Grande de Maria Moura pedindo asilo e lembra à Maria Moura que quando mais nova, ela teria se confessado a ele por um pecado que ainda iria cometer. Maria Moura então acolhe o padre que em seguida muda de identidade para não ser encontrado, passa então a se chamar Beato Romano. O primeiro capítulo é contado do ponto de vista de Beato Romano, já no segundo capítulo o mesmo momento é contado a partir de Maria Moura, o que lembra uma obra cinematográfica ou de telenovela, não é a toa que foi adaptado tão bem para uma minissérie, apesar de Rachel de Queiroz não ter gostado muito da adaptação rsrs.


O enredo do livro se desenrola em três histórias principais:

Maria Moura que diante de uma tragédia familiar, se vê sozinha em uma época em que o patriarcado impera e a mulher não tem voz igualitária aos homens, e mesmo sendo um alvo fácil para seu padrasto que busca passar as terras para seu nome e de primos que tentam lhe roubar sua parte das terras, ela não se vê intimidada e consegue se impor e agir de forma incomum aos padrões ditos "femininos" para buscar sua liberdade, mesmo que seja fora das regras e leis.


Beato Romano, antes padre José Maria, fazia parte de uma comunidade, se apaixonou e teve um relacionamento escondido com Bela, uma mulher casada mas que o marido está em uma expedição e há muito tempo não retorna para casa, ela nem mesmo sabe se ele ainda está vivo. Como já se prevê também ocorre uma tragédia em decorrência desse relacionamento e o padre passa a ser um fugitivo.


Já Marialva é prima de Maria Moura e irmã dos primos que tentam roubar as suas terras, ela se apaixona por Valentim, um saltimbanco, a partir desse relacionamento também ocorrem vários acontecimentos entre alegrias e tragédias.

Destas 3 histórias centrais, mais personagens vão surgindo na trama, fazendo com que o enredo se entrelace perfeitamente com os personagens principais.


O tema central que percorre por todo livro é a força da mulher e suas diferenças em cada uma delas: Maria Moura é uma mulher forte, que não se deixa intimidar por nenhum homem, que por um tempo se abstém de um relacionamento para não perder o respeito pelos homens que trabalham para ela. Já Bela, é uma mulher casada sem amor, dona de casa e mãe, mas que ainda assim busca a felicidade mesmo que seja através de um ato proibido. Marialva é uma mulher que não tem nenhuma perspectiva de futuro, nem mesmo de um relacionamento, pois os irmãos a privam de um casamento para não ter que dividir suas terras. E no decorrer das histórias vemos que há diferentes tipos de mulheres, cada uma com uma força tremenda para sobreviver mesmo quando as esperanças são mínimas.

"O único lugar que a mulher pode frequentar sozinha é mesmo a igreja." (p. 105)

A história se passa na zona rural do nordeste no século XIX, as cidades são fictícias mas utilizam de fatos históricos para situar os personagens. Em alguns momentos Rachel insere algum cato histórico como a Guerra do Cariri (Confederação dos Cariris) que ocorreu entre os anos de 1683 e 1713 na região Nordeste do Brasil e também sobre o período do Brasil Império desde a Independência do Brasil (1821-1825) e terminou com a Proclamação da República (1889).

"Os escravos tinham morrido, mas foi como se o quilombo continuasse. Um sujeito por nome Sandoval, fugido da Guerra do Cariri, tinha tomado conta do terreno." (p. 82)
"Agora o Brasil era um Império, onde não se aceitava mais aquela vergonha do pelourinho." (p. 261).

A linguagem utilizada na obra é muito simples e regionalista, além disso também utiliza termos de acordo com a época que se encontram. Em vários momentos eu lembrava de meus avós que utilizavam de algumas expressões e até mesmo superstições que há no livro. Rachel conseguiu trazer a cultura própria de uma região para sua obra, mesmo com alguns lugares fictícios e que é compreendido facilmente por quem lê. Além do tema sobre a força da mulher e seu lugar em um momento regido pelo patriarcado, o livro vai além e nos expõe sobre a escravatura, a região nordestina que é esquecida pelos governantes, a fome, a violência e ganância.


Mesmo tendo mais de 500 páginas, o livro é composto por muita ação e o desenrolar dos momentos vão se desenvolvendo e consequentemente surgindo novos, ele não tem muitas pausas ou momentos contemplativos, isso faz com que a leitura flua muito bem e prenda o leitor na história. Pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Espero que gostem da leitura!



Memorial de Maria Moura

Escritora: Rachel de Queiroz

Editora: Record / Selo: José Olympio

23º edição - 2121


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