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Insônia - Graciliano Ramos

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 8 de mai. de 2021
  • 3 min de leitura

Iniciei a leitura de Insônia sem saber nada sobre o livro, inclusive, descobri ser um livro de contos no momento da leitura e o título do livro leva o nome do primeiro conto. Com o total de 14 histórias, que às vezes tem uma ligação com outras histórias do livro, todas as narrativas trazem uma dicotomia que permeia por todas as narrativas, mesmo com situações diferentes os personagens sempre se veem em um conflito por dois caminhos, situações e até mesmo personalidades.


Tenho consciência de que se deve separar a vida do escritor da obra, mas não há como não mencionar o contexto histórico efervescente em que Graciliano se encontrava, antes mesmo da criação de suas obras até suas publicações. E a influência explícita que ela transparece, inclusive no livro Insônia. Todos os contos que compõem o livro foram publicados e escritos, em sua maioria, em datas diferentes em revistas da época a partir de 1937. Somente em 1945 que esses contos foram integrados ao livro intitulado "Insônia''.


Graciliano nasceu em 1892, em meio a um governo oligárquico, passou pela Revolução de 30, pela Revolução Constitucionalista de 32 e a Ditadura do Estado Novo, presenciou essa transição política, como descreveu Letícia Malard no posfácio desta edição. E neste contexto, surgem os contos que sempre traz um personagem reflexivo em seu estado de ser, das ambivalências cotidianas e da própria existência, o que leva a um paralelo ao que se vivia na época de Graciliano, a mudança da forma de Governo e consequentemente as mudanças na forma de vida e de pensamentos de uma sociedade.


Já no primeiro conto, inicia-se com a pergunta: "Sim ou não?" aquela resposta que não terá um meio-termo, não há algo variável, apenas uma escolha, um lado ou outro, mas Graciliano não te dá uma resposta da dúvida que assombra o personagem, e sim, metáforas, pensamentos angustiados em que ele não consegue dormir pois está sendo torturado pela voz interior em sua cabeça e pelos sinais que metamorfoseia-se no tique-taque do relógio e nos mínimos sons noturnos que atormentam seu sono.


Assim como no primeiro conto, todos subsequentes há dualidades, escolhas a serem feitas, e caso seja, será a correta? No caso do conto "Dois dedos", o Dr. Silveira vai ao Gabinete de seu amigo de infância, hoje Governador:

"Um deles estudara Direito, entrara em combinações, trepara, saíra governador; o outro, mais curto, era médico de arrabalde, com diminuta clientela e sem automóvel". (p. 92 - Dois dedos)

A partir do momento em que o médico chega ao local de trabalho do amigo político, ele se vê intimidado pela magnitude do local, em não conseguir chegar a um patamar igualitário, ao qual se gabava a esposa de serem amigos íntimos, fazendo até o gesto de esfregar um dedo um no outro. E mesmo assim, seus caminhos em torno de 20 anos tomaram rumos diferentes, duas vias desiguais.


Outro tema recorrente nos contos são as visões nebulosas e sombras, algo que está em um campo de desfoque. Podemos remeter como uma metáfora ao que não se sabe ao certo o que virá ou o que se pode confiar, geralmente antecede momentos de vulnerabilidade do personagem.


"O nevoeiro embranquece novamente a sala, as paredes somem-se, o rosto da mulher mexe-se numa sombra leitosa" (p. 48 - Paulo)
"Tinha as mãos úmidas e as orelhas pegando fogo, a vista escurecia, um nevoeiro ocultava as figuras". (p. 107 - A Testemunha)

Outra similaridade entre os personagens dos contos é que eles se sentem incomodados, tanto com as pessoas à sua volta, ao local em que estão inseridos e que não se acham pertencentes ali, como também por situações em que se encontram, por se sentir deslocados em uma sociedade ou grupo de pessoas. Cada um se vê quase como um estrangeiro, o que me lembrou bastante do personagem Meursault do livro "O Estrangeiro" de Camus, esse deslocamento do ser onde está inserido, um sentimento de não-pertencimento.


Levando em conta toda a vida de Graciliano, todas as indas e vindas, mudanças de cidades, prisão por ser considerado um subversivo comunista, morte de familiares pela peste bubônica e o envolvimento da oposição ao Governo. Tudo isso transparece em sua obra, sua vivência enriquece sua literatura de uma maneira única, trazer personagens com seus medos, angústias, dúvidas e arrependimentos, e ao mesmo tempo esses personagens se empenham, em fazer parte, algo natural do ser humano, a busca constante de pertencimento.


Como o próprio personagem do conto Insônia diz:


"Amanhã comportar-me-ei direito, amarrarei uma gravata ao pescoço, percorrerei as ruas como um bicho doméstico, um cidadão comum, arrastado para aqui, para acolá, dizendo frases convenientes. Feliz, completamente feliz". (p. 14 - Insônia)


Boa Leitura!

Insônia

Escritor: Graciliano Ramos

Editora: Record

33º edição - 2121


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