Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst (Org. Cristiano Diniz)
- Jacque Spotto

- 25 de fev. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de mar. de 2021
Fiquei interessada em ler mais livros de Hilda Hilst depois de ler o polêmico "O caderno rosa de Lori Lamby". Hilda publicou seu primeiro livro em 1950 e desde então escreveu poemas, prosas, teatro e crônicas, e o que me impressionou foi perceber que eu tenha passado pelo curso de Letras (2002-2005) e não tive conhecimento de seu trabalho na época. E fica a dúvida de como uma autora nacional que produziu tanto e obras tão elogiadas hoje, seria tão escassa a sua propagação ao público, pelo menos em minha região da época (estudei em uma Universidade Pública no interior de Goiás).
Então descobri o livro "Fico besta quando me entendem", que já me chamou a atenção pelo título e para minha sorte era um livro de entrevistas com Hilda Hilst feitas de 1952 a 2002. A partir do momento que você é imerso nessas entrevistas, que estão em ordem cronológica, vamos construindo a personalidade dessa figura ímpar que desde o começo expõe uma necessidade de se fazer comunicável, de ser lida, de poder tocar o ser humano. E vendo que somente pelos seus poemas ela não conseguiria tal resultado, passou a escrever teatro, do teatro foi para a prosa, utilizando de quase todos os meios dentro da escrita para alcançar o leitor.

"Nós vivemos num mundo em que as pessoas querem se comunicar de uma forma urgente e terrível. Comigo aconteceu também isso. Só poesia já não me bastava. A poesia sofre um desgaste terrível. A gente diz as coisas, mas as edições, além de serem pequenas, vendem pouco. Então procurei o teatro." "Sou alguém sobre quem as pessoas falam, mas meus livros não são lidos." "Por que as pessoas acham que eu escrevo para os eruditos? Eu falo tão claro. Eu falo até sobre a bunda". E ele me respondia: "Mas tua bunda é terrivelmente intelectual, Hilda". Eu ficava desesperada." Hilda passou boa parte de sua vida de escritora reclusa em uma chácara nomeada por ela de: "Casa do Sol", longe da cidade. Ela escolheu esse local para poder escrever, pois na cidade com todas as distrações: festas, amigos… ela não poderia se concentrar na escrita. Se distanciou da sociedade para escrever sobre o ser humano em sua mais profunda busca pelo entendimento da vida, a busca de se conhecer e conhecer o outro.
"Todos os meus textos se resume a este tipo de proposta: uma sequência de instantâneos, uma sequência de flashes, como se eu estivesse fotografando a visão que tenho do outro, minha visão sobre você. E meus textos reunidos só têm uma ambição: expor essa visão do outro." Talvez mesmo por isso, ela tenha se dedicado uma época de sua vida em captar vozes com um gravador, para tentar obter indícios do que há além da morte, que aliás é um tema recorrente em suas obras. Hilda era obcecada por essa questão do encerramento da vida e o mistério do que vem depois, ou do que não há depois da morte. E ela levou muito a sério seus experimentos e estudos sobre essa técnica.
"Acho que a minha criação literária e as minhas fitas coincidem num ponto. Justamente naquele da urgência de comunicar ao outro: "Você é imortal, cada um de nós preservará sua individualidade." Nas entrevistas, Hilda também fala muito de sua infância e principalmente de seu pai, que teve pouco convívio, mas que foi idealizado por ela como o ideal de ser humano. Ela relata muito sobre a personalidade que ela criou de seu pai a partir de relatos de familiares, pois ela só o conheceu quando já era adolescente e ele já era paranóico e esquizofrênico. Mesmo assim ela tinha orgulho dele, e se refere como um homem muito bonito e inteligente. E isso fez com que ela buscasse as mesmas qualidades nas pessoas com quem ela se relacionava.
"Sua imagem continuou em mim, alimentando um desejo que nunca mais parou: encontrar um homem parecido com ele. No fundo [risos], sou a perfeita edipiana."Outro fato recorrente nas entrevistas era sua indignação com as editoras, ela sempre queixava-se do descaso das editoras em propagar e publicar suas obras. Quando o faziam eram sempre poucas tiragens. Talvez por isso mesmo Hilda tenha escrito, já nos anos 90, livros considerados "devassos", foi uma das últimas cartadas em que a escritora busca se aproximar do público para que pudessem lê-la. E fica óbvio a ironia que ela usa no livro "O Caderno rosa de Lori Lamby", onde o pai de Lori Lamby é um escritor que se vê obrigado a escrever livros que utilizam teor sexual para que o editor possa publicá-los.
"HR: Como é ser vista como uma escritora pornô?
HH: Estou achando muito engraçado e ao mesmo tempo estou impressionada. Eu era uma espécie de KGB literária, que ninguém lia, e agora, segundo o Jornal da Tarde, passei a ser uma das malditas de todos os tempos. Ficou uma situação terrível porque eu não sei onde me situar." Mesmo sem conhecer as obras de Hilda Hilst, neste livro de entrevistas, será possível conhecer um pouco sobre sua a forma de escrita, seus pensamentos, sua visão do que deve ser um bom livro e sua indignação por tentar de todas as formas se conectar com o outro e não conseguir em boa parte das vezes.
Muito mais do que uma escritora, ela era uma pensadora fervorosa, que tinha uma mente afiada buscando mais do que está em nossas meras emoções e sentimentos, buscava transcender. O que te trará uma curiosidade em ler seus livros e saber sobre essa tão propagada "hermeticidade" que a crítica e editores expunham e o que seria esse fator que impedia o leitor de compreender sua escrita.
"Quero ser lida em profundidade e não como distração, porque não leio os outros para me distrair mas para compreender, para me comunicar. Não quero ser distraída. Penso que é a última coisa que se devia pedir a um escritor: novelinhas para ler no bonde, no carro, no avião." Fico besta quando me entendem: entrevistas com Hilda Hilst
Editora: Biblioteca Azul / Globo Livros
2013




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