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Cidade de Deus - Paulo Lins

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 12 de jan. de 2021
  • 4 min de leitura

Confesso que foi um livro que demorei um tempo para terminar, não por ser extenso, mas pelas suas pesadas histórias. Muitas vezes tive que dar uma pausa na leitura. A narrativa quase materializa as cenas diante de você como se estivesse assistindo a um filme, uma sensação tangível em ler.


Pois bem, um pouco do contexto histórico é bom para compreender melhor o livro. Cidade de Deus é um bairro do Rio de Janeiro, em seu início em 1966, inaugurou-se como um conjunto habitacional. Com a grande enchente em 1966, muitos moradores perderam suas casas e não tinham um local para se abrigar, levando essa população a se mudar para a Cidade de Deus nas condições inacabadas do local.


Paulo Lins, escritor da obra, também foi morador da favela Cidade de Deus, trabalhou em um projeto antropológico sobre a criminalidade no Rio de Janeiro com relatos reais e com sua própria vivência contribuiu para incluir em seu romance a maior quantidade de detalhes de como era viver nessa favela, o que lhe resultou até mesmo em uma adaptação para o Cinema, ganhando maior visibilidade, tanto do livro quanto do bairro.


Enfim, vamos ao livro! É composto por 3 capítulos e cada um vai relatar a história de vida de 3 traficantes desde o início do setor, assim como também pessoas que fazem parte de suas vidas. Os personagens são ficcionais mas a situação no livro é um panorama da realidade dessa população que ainda perpetua nos dias atuais. O setor sem infra-estrutura, longe de tudo, deficiência no transporte, e em todos os setores básicos para manutenção da sobrevivência.


"Famílias de várias favelas do Rio chegavam ao novo conjunto habitacional. A chance de adquirir uma casa própria e, enfim, estabelecer-se funcionava como um chamariz, mas a distância e a precariedade das condições oferecidas levavam muitos a reconsiderar a decisão." (posição 492)


Apesar de ser focado em 3 personagens centrais, o livro tem uma gama de personagens e acontecimentos. No início, me perdi em meio aquele emaranhado de pessoas e suas histórias, pois, tudo que compõe o setor é parte da Cidade de Deus, que acaba sendo o "personagem" principal, pois, todos os habitantes que ali se encontram, todos os fatos, suas entranhas sendo relatadas de forma crua como uma manchete de Jornal, tudo isso é o setor, então assim, também é o personagem.


Dentre todas as histórias e pessoas que perpassam na narrativa do livro, encontraremos mães que perdem seus filhos para o tráfico ou por balas perdidas; pais de família que são roubados e mortos por assaltantes e/ou traficantes; mulheres que são submetidas a estupros e violência doméstica; crianças que lhe são negadas o direito à infância e de pessoas que aderem a vida da criminalidade pois lhe são tirado tudo de valioso como: família, emprego e dignidade.


Paulo Lins tem uma escrita direta, quando você menos espera é apresentado a uma situação cruel, violenta e triste, o que pode causar diversas reações em diferentes leitores, e o que realmente nos toca é saber que fatos como os que estamos lendo, de fato, aconteceram e ainda acontecem. Também é explícito os temas sobre o racismo e preconceito incutido desde a fundação do setor e até mesmo antes, e o que a lembrança dos tempos da escravidão ficou condicionado nos dias atuais, e que consequentemente resulta na realidade da população.


Com a falta de oportunidades e educação (até pouco tempo ainda a população de Cidade de Deus lutava para incluir o Ensino Médio nas escolas) e a clara humilhação a que muitos trabalhadores se submetiam, muitos viam na criminalidade uma forma de uma vida melhor. Em todo o livro é evidente sempre a discriminação da população negra, onde ser negro é sinônimo de bandido. Mas aí muitos podem dizer: "Ah, mas isso não é motivo para se tornar bandido, muita gente na favela é trabalhadora", sim muitos são, mas com certeza com uma infra-estrutura melhor, um plano de políticas públicas que saísse do papel, a criminalidade seria minimizada. O indivíduo é um ser único e cada um reage de uma forma quanto a sua sobrevivência, ainda mais em um ambiente precário que é apresentado no romance.


"Todo mundo aqui tem cara de bandido, quase não tem branco, nesta terra só tem crioulo mal-encarado." (posição 621)


"Conseguiu um emprego na empresa Sérgio Dourado, onde foi explorado por muito tempo, mas não ligava. A fé afastava o sentimento de revolta diante da segregação que sofria por ser negro, desdentado, semianalfabeto." (posição 2608)


O livro também relata a corrupção policial, onde os mesmos, também extorquiam os próprios traficantes para fazerem vista grossa, obter bens, dinheiro e drogas, policiais também que tinha um trabalho nem valorizado pelo Governo e nem bem-visto pela população, onde se tornavam quase o mesmo que bandidos fardados.


"Grande que matava policiais por achar a raça a mais filha da puta de todas, essa raça que serve aos brancos, essa raça de pobre que defende os direitos dos ricos. Tinha prazer em matar branco, porque o branco tinha roubado seus antepassados da África para trabalhar de graça, o branco criou a favela e botou o negro para habitá-la, o branco criou a polícia para bater, prender e matar o negro". (posição 3479)


Cidade de Deus aborda a criminalidade, tráfico, vinganças, medo, falta de oportunidades, entre vidas individuais e em conjunto que buscam melhorar suas condições em meio a sua exclusão da própria sociedade, mas isso tudo como uma consequência do descaso governamental, dos preconceitos raciais e sociais atrelados a vida dessa população. Aqui uma comunidade relatada de forma ficcional como uma maneira de expor uma realidade ainda vivida por milhares de pessoas e suas famílias; uma realidade que se mantém viva, onde há algumas melhorias e mudanças de consciência, mas elas são suficientes? Houve mudanças significativas? ou para cada mudança há centenas de problemas que rompem com essa melhoria?


É um livro que nos faz confrontar com o Brasil que enxergamos apenas através de manchetes de jornais, como apenas mais um crime ou mais uma morte, como algo que colocamos um muro e mentimos para nós mesmos que é algo distante.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Livro: Cidade de Deus

Escritor: Paulo Lins

Editora: Tusquets Editores

Ano: 2018


REFERÊNCIAS JORNALÍSTICAS

Artigo: Cidade de Deus volta às manchetes, mas segue esquecida por Estado.

<https://vejario.abril.com.br/cidade/cidade-de-deus-volta-as-manchetes-mas-segue-esquecida-por-estado/>


Artigo: Enchentes fazem parte da história do Rio de Janeiro.

<https://agenciauva.net/2019/04/09/enchentes-fazem-parte-da-historia-do-rio-de-janeiro/>

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