Assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre
- Jacque Spotto

- 16 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Há algum tempo eu queria conhecer essa obra do Gilberto Freyre, só pelo título fiquei curiosa em saber do que se tratava, se era um estudo sociológico, antropológico, um romance, contos, crônicas, enfim, eu não sabia. Então veio a oportunidade de ouvi-lo em audiolivro em parceria com a Toca Livros e Global Editora.
Sempre tive a ideia errônea que um audiolivro seria apenas uma gravação de uma pessoa lendo, até ouvir meu primeiro audiolivro "O auto da compadecida", e percebi ser muito mais que isso, a maioria desses narradores são também atores, pois eles incorporam o que o (s) narrador (es) do livro escreveu. Ele tem que interpretar e criar as emoções necessárias para traduzir em palavras audíveis o que apenas lemos de forma escrita. No caso de "Assombrações do Recife Velho", o livro escrito é narrado pelo próprio Gilberto Freyre e no audiolivro por Flávio Costa, narrador que também atuou em espetáculos teatrais, cinema e comerciais, além disso também faz shows de humor, escreve peças teatrais e já lecionou interpretação para atores.

Ouvi-lo me transportou para a época, para todas as histórias assombrosas que Gilberto Freyre coletou durante tempos, para unificar em um único livro que foi publicado pela primeira vez em 1955, onde traz relatos de pessoas do Recife sobre aparições, visagens, lendas de criaturas da noite, lendas urbanas e rurais, casas mal-assombradas, dentre outras tantas histórias que perpassam o imaginário da região. Não é para menos, Recife é uma das mais antigas capitais do Brasil, surgiu poucos anos depois da colonização do país, e essa reunião de culturas, etnias e religiões no seu início emergiu também em histórias com resquícios de personagens de cunho europeu, africano e indígena.
Não há uma delimitação para os tipos específicos que fazem parte desse universo assombroso, vão de pessoas que foram escravizadas a crianças fantasmas, de criaturas sedentas por sangue a simples aparições solicitando uma missa para sua alma. Outro fato interessante é que não são somente seres com aspecto humano que podem ter essa aura fantasmagórica, mas também objetos e animais das mais variadas formas como: carros, árvores, navios, cabras e casas (são as mais frequentes), também podem ser detentoras do sobrenatural. A maioria das histórias fazem parte de um contexto histórico da região e do próprio país, como as famosas luzinhas misteriosas:
"...é crença de que aparecem luzinhas misteriosas nos morros onde se travaram encontros da gente luso-brasileira com a flamenga; ou onde a gente luso-brasileira teve seu arraial." (Assombrações do Recife Velho - cap. 8)
E também aparições em casas onde antigos moradores escondiam dinheiro nas paredes ou em outro lugar próximo. Há relatos de moradores que contam sobre aparições que mostram os lugares desses tesouros escondidos. Lendo Casa-Grande & Senzala do mesmo autor, ele relata esse costume que os antigos donos das Casas-Grandes e frades praticavam:
"Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se joias, ouro, valores". (p. 40 - Casa-Grande & Senzala)
Muitas são as histórias reais que se transportam para lendas e mitos, fazendo da cultura popular única por incorporar um misto de acontecimentos que fizeram parte da região e o misticismo e que foram migrando para outros pontos do país, digo isso porque quando morava no interior de Goiás já ouvia muitas histórias semelhantes, com algumas "adaptações" a nossa região. Ouvir esse livro me trouxe a infância, pois lembro desses "causos", principalmente das luzinhas, dizia-se "Mãe de Ouro", onde uma luz brilhava e vagava pelas serras goianas e onde ela parava estava enterrado um tesouro, dentre várias outras que me fizeram dormir a noite coberta até a cabeça rsrs.
E aí, se interessou em ouvir um audiolivro?
Bibliografia
Assombrações do Recife Velho
Escritor: Gilberto Freyre
Narrador: Flávio Costa
Editora: Global Editora / Toca Livros
Casa-Grande & Senzala
Escritor: Gilberto Freyre
Editora: Global
2121 - 51 ed.




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