Alexandre de Gusmão (1695 - 1753) o estadista que desenhou o mapa do Brasil - Synesio Sampaio
- Jacque Spotto

- 9 de set. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2022
A primeira pergunta que me fiz quando vi o título do livro foi: "Quem foi Alexandre de Gusmão?", já no subtítulo "o estadista que desenhou o mapa do Brasil", pensei: "Não lembro dele nos livros de história", até porque, não vou mentir, não são tantos personagens da história que ficam guardados em minha mente, e outra pergunta: "Qual seria sua importância na história do Brasil?"
O livro é um ensaio biográfico deste estadista, entretanto, não há muitas informações de sua vida particular, e sim, mais de sua importância profissional, principalmente na época em que foi secretário do rei de Portugal D.João V e por ser um dos principais negociadores do Tratado de Madri, que deu ⅔ a mais ao nosso território. Então, além de tratar de um ensaio biográfico, também é um livro histórico que aborda um momento importante e crucial, que culminou no desenho territorial brasileiro. E é algo que realmente nunca parei para pensar em como foram delimitadas as fronteiras do nosso país.

Alexandre de Gusmão nasceu em Santos em 1695, não era de família rica e com 13 anos de idade partiu para Portugal com seu irmão mais velho, o jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão, sim, o famoso "padre voador", onde é citado até mesmo no livro "Memorial do Convento" de José Saramago. Estudou Direito e Cânones e com apenas 19 anos foi escolhido por D. João V a ser secretário do novo embaixador de Portugal em Paris, onde partiu com ele e morou por 5 anos na França. Ao seu retorno, passando por Madri, conheceu pessoas influentes, que ajudou a formar ainda mais seu conhecimento sobre assuntos das coroas. Já em 1730, assume o cargo de secretário “dél-rei", os assuntos onde Alexandre mais se empenhava eram sobre a Igreja e o Brasil.
Alexandre não era bem visto por muitos aristocratas portugueses, primeiro por ser um "estrangeirado", que era uma denominação a intelectuais que viveram boa parte da vida fora de Portugal, e também pessoas que teriam saído do país para fugir da Inquisição, ainda mais na época em que Portugal era considerado um dos países mais "cristãos" e avesso a intelectualidade iluminista, e mais favorável a religião. Com a inquisição no país, houve perseguições e condenações de judeus. Seu próprio irmão, Bartolomeu, que era um padre jesuíta, se convertera ao judaísmo, deixando Alexandre com fama de ser também um judeu.
Alexandre, mesmo servindo a um Rei como D. João V totalmente "carola", em uma época que corria-se risco até mesmo de vida por seus pensamentos, era uma pessoa contrária às perseguições por religião.
"Alexandre sempre se relacionou com membros da comunidade israelita de Portugal. Era um iluminista que achava ridículas as questões de pureza de sangue da nobreza lusa (escreveu até um estudo em que pretendia provar que não havia em Portugal quem não tivesse sangue judeu). Um humanista que se revoltava com a sanguinária perseguição do Santo Ofício". (p. 86)
Mas mesmo com certa relutância por alguns aristocratas, de ter Alexandre de Gusmão como secretário do rei, ele era uma das pessoas mais influentes do reino. Também escrevia poesias e sonetos e ganhou fama por sua ironia e acidez em suas cartas, essa também era uma de suas funções, "puxar a orelha" de alguns da Corte, note a carta escrita em 1748, dirigida a Pedro Mota, que tinha sido acusado de não receber as horas de expediente:
"A sua Majestade têm sido presentes os grandes incômodos que sentem as pessoas que procuram V. Ex. [...] é o mesmo Senhor servido ordenar-me que advirta V. Ex. de que os dias foram feitos para trabalhar e as noites para dormir..." (p.79)
Alexandre, que é conhecido por ser um dos responsáveis pelo Tratado de Madri de 1750, durante anos foi esquecido pelos historiadores, e só teve visibilidade a partir dos estudos feito pelo Barão do Rio Branco no século XX, e algum tempo mais tarde, por um historiador português chamado Jaime Cortesão, que resgatou sua história concluindo em um livro no ano de 1950, porém,, muito extenso, contando com 9 volumes. Synesio consegue sintetizá-lo, de forma que o livro, se torne mais acessível à população em geral, até mesmo, para quem não tem tanta intimidade com a História do Brasil.
Mas o que foi o Tratado de Madri de 1750? Iniciaremos bem antes, em 1494, a grosso modo, os lusos e espanhóis dividiram por uma linha meridional as terras do Atlântico e de qual lado seria pertencente a cada Coroa, chamado assim de “Tratado de Tordesilhas''. Mesmo assim, colonizadores lusos e espanhóis geralmente ultrapassavam essa linha divisória de seu "vizinho". Mas havia uma região específica, que era motivo de um certo atrito entre as Coroas: A Colônia de Sacramento, atualmente, no sudoeste do Uruguai. Em muitos momentos, essa Colônia estava sob domínio português, inclusive foram os lusos que fundaram a cidade, e durante um tempo esteve sob domínio espanhol e esse vaivém de "quem é o dono" permaneceu por anos.
"Será, questionamos nós hoje, que Portugal de boa-fé acreditava que a foz do Prata estava na sua metade tordesilhana? Era possível que sim: nessa época, não se sabia marcar longitudes com precisão." (p.35)
Essa Colônia se encontrava em frente ao Rio da Prata e Buenos Aires, era uma rota muito importante de navegação. Conhecedor dos assuntos da Colônia e vendo o grande interesse dela pelos espanhóis, Alexandre de Gusmão, reúne documentos para pautar sua proposta à Coroa espanhola, uma delas seria anular o Tratado de Tordesilhas e gerir um novo Tratado (Tratado de Madri), onde delimitariam os limites das fronteiras pela demarcação conduzida pelos rios e montanhas, e também pela já ocupação de pessoas das regiões, ou seja, quem já estivesse ocupando a terra teria direito a ela (português ou espanhol), dentre outras propostas, ele negocia uma troca, que lusos cedessem a Colônia de Sacramento e os espanhóis a região dos Sete Povos das Missões, que é parte da região do Rio Grande do Sul atualmente. Alexandre utilizou o Mapa das Cortes para ilustrar tais demarcações, porém, esse mapa favorecia Portugal, mostrando territórios que não faziam parte de Portugal, e sim da Espanha, dando a impressão que os espanhóis estavam cedendo bem menos do que realmente era. Pois bem, após a assinatura do Tratado, o Rei D. João V morre e com a substituição da Coroa também veio a substituição de Alexandre de Gusmão. Assume em seu lugar como ministro, o Marquês de Pombal, que não gostava do santista e muito menos do Tratado de Madri.
Vários empecilhos fizeram com que o Tratado fosse anulado, um deles foi a Guerra Guaranítica, onde os povos das missões, tanto os índios quanto os jesuítas, não aceitaram que deveriam desocupar o território que era deles. Também houve a ascensão de Carlos III da Espanha, que era contra o Tratado de Madri, mas o que jogou mesmo a "última pá de terra", digamos assim , foi o Marquês de Pombal, pois não queria ceder a Colônia de Sacramento e tinha uma certa rixa com o Alexandre de Gusmão.
Depois do anulamento, a divisão territorial feita pelo Tratado de Madri continuou, inclusive a grande parte territorial da Amazônia, que foi incorporada ao mapa brasileiro pelo tratado, mas ambos os territórios que foram negociados em base de troca: Colônia de Sacramento e os Sete Povos das Missões, ficaram com a Espanha. Atualmente, sabemos que o território de Sacramento ficou com os espanhóis, pois hoje ela faz parte do Uruguai, mas a região dos Sete Povos das Missões pertence ao Brasil.
Apesar de acordos e desacordos, o Tratado que delimitou e mais se parece com a divisão territorial de hoje, foi o Tratado de Madri, que foi um acordo diplomático organizado por um santista que tinha ideias iluministas, que era desprezado por alguns e admirado por muitos e faleceu 3 anos após a assinatura do acordo que ele planejava. Foi esquecido da História por muitos anos e revivido somente no século XX, como uma parte essencial para o que temos hoje como nosso território nacional.
Alexandre de Gusmão (1695-1753) O Estadista que desenhou o mapa do Brasil
Escritor: Synesio Sampaio Goes Filho
Editora: Record
2121 - 2 ed.




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