Um sopro de vida - Clarice Lispector
- Jacque Spotto

- 17 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Que livro minha gente! Com apenas 183 páginas fui imersa em uma enxurrada de emoções, sentimentos e pensamentos onde imaginaria poucas pessoas serem capaz de escrever de forma tão genuína.

"Um Sopro de vida" foi publicado postumamente, em 1978, e foi escrito entre 1974 a 1977, simultaneamente com seu outro último livro ainda publicado em vida "A Hora da Estrela". Porém, "Um Sopro de Vida" tem uma narrativa que foge de uma escrita tradicional, não é um livro de início, meio e fim, parece mais jorros de emoções e sentimentos presos por Clarice e que ela foi escrevendo, como se botasse tudo o que sentia para fora. Ela relata no início do livro: "Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranquila. O beijo no rosto do morto." p. 11.
Clarice se utiliza de um narrador personagem nomeado apenas como "Autor", ele relata seus anseios e a dura arte de escrever e se inspirar, com isso ele cria a personagem "Ângela Pralini" para poder exprimir de forma terceirizada uma definição melhor do que ele realmente gostaria de dizer. Diante essa criação, o Autor e Ângela através de um fluxo de consciência vão relatando o que há de mais íntimo sobre eles, no primeiro momento parece até ter um diálogo mas conforme a leitura se aprofunda, percebemos que são pequenos textos e frases fragmentadas. O Autor tem pura consciência da existência de Ângela, já ela, simplesmente recita seu monólogo.
É evidente na leitura sempre a abordagem de temas como o sentido da vida, a busca por "Deus" através da meditação, nesse caso se refere a algo místico, não necessariamente o Deus do Cristianismo, como também o tempo e o mistério da morte. E esses temas são um pouco divididos durante o livro, já em alguns momentos se completam, pois pelo menos na minha edição de 1991, há uma certa divisão quando há somente textos do Autor e outros de Ângela, e outros de algum tema que ambos comentam como se fosse um diálogo, mas não é. No decorrer da leitura, Ângela passa a tomar um papel principal, a ter cada vez mais voz, e cada vez mais leva o Autor a ser influenciado por sua criação. No livro biográfico "Clarice,", escrito por Benjamin Moser, vemos alguns trechos em que Clarice pressente a própria morte, e até mesmo em sua última entrevista, solicita que somente viesse ao ar depois que estivesse morta. Esses textos que compõem o livro, foram escritos durante esse estado melancólico de Clarice, e ela deixa bem evidente esse sentimento de proximidade e medo do fim, principalmente em suas últimas páginas. "Autor - Eu não sabia que o perigo é o que torna preciosa a vida. A morte é o perigo constante da vida. A vantagem de Ângela sobre mim é que ela é inespacial, enquanto eu ocupo um lugar e mesmo depois de morto continuarei ocupando a terra." p. 173 "Ângela - Na hora de minha morte - que é que eu faço? Me ensinem como é que se morre. Eu nao sei." p. 177 Em alguns momentos Clarice não consegue expressar somente por palavras uma sensação, ela mistura sensações e sentidos como o cheiro, o tato, visão e sons como também cria neologismos em descrever uma emoção, sentimentos, sentidos no geral, como algo inominado, o vocabulário é restrito em chegar perto do que realmente são tais coisas. "Ângela - ...Ulisses é Malta, é Amapá - fica no fim do mundo. Como é que se vai até lá? Ele late quadrado - Não sei se dá para entender o que quero dizer."p. 64 (Ulisses é seu cachorro) "Autor - ..."Ângela, meu amor, tateei no escuro das palavras para achar a tua. E minha mão voltou com uma palavra que ofuscou: faruscante. Não sei o que quer dizer nem se existe o que descobri." p. 164 (neologismo - faruscante) Sinceramente daria para escrever uma tese apenas de uma página desse livro, tal qual é o desnudamento íntimo de uma pessoa. Clarice escreve de forma que busca que entendamos o que ela sente, e essa busca por uma linguagem mais próxima de tal sentimento chega a dar uma certa angústia pela escritora, por esse esforço de tentar exprimir em palavras o que não é descritível. Confesso que levei bem mais tempo para ler esse livro do que imaginava, a cada frase, eu sentia o baque no pensamento e no entender. Penso que esse livro funcionará para cada pessoa de forma diferente, para mim, em especial, terminei de lê-lo com um pesar em cada página. Não me entendam mal, não que seja um livro ruim, de forma alguma, é um livro diferente, com uma carga emotiva muito grande, um leitor que tem aquela imersão em suas leituras sentirá muito mais do que leitores que conseguem fazer essa separação. Como também para pessoas que se adequam mais com leituras dinâmicas e com menos divagações talvez não seja tão convidativo. Mas de todo caso, é um livro simplesmente sensacional e que não há como não fazermos um paralelo com a vida e proximidade da morte da própria autora. Até a próxima leitura! LIVRO: Um Sopro de Vida AUTORA: Clarice Lispector EDITORA: Círculo do Livro ANO DE EDIÇÃO: 1991 Livro biográfico citado: LIVRO: Clarice, AUTOR: Benjamin Moser EDITORA: Cosac & Naify ANO DE EDIÇÃO: 2009




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