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O Auto da Maga Josefa - Paola Siviero

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 9 de jan. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de ago. de 2022


Depois de algumas leituras pesadas em 2019, já no último mês do ano resolvi ler algo mais leve, pedi algumas indicações e me apresentaram essa feliz surpresa chamada "O auto da maga Josefa" de Paola Siviero. Aquele tipo de leitura que você não consegue parar até chegar ao fim, e quando chega você quer mais! Um livro tão bem escrito sendo a primeira obra da autora.

O auto da maga Josefa é a prova de que no Brasil, podem sim escrever uma literatura fantástica com bruxos, magos, golens, fantasmas, vassouras voadoras (nesse caso um galho de cajueiro), vampiros, dragões ou (calangos voadores) entre outros seres mágicos, sem perder a sua identidade nacional e ainda mais, sem perder a identidade regionalista, no caso do livro, do sertão nordestino. Em uma região do nordeste paralela onde humanos convivem com demônios e criaturas mágicas, temos Toninho, que faz parte de uma linhagem de caçadores de demônios, e Josefa - uma maga, a própria filha do diabo, os dois partem para o interior em uma aventura que dura alguns meses, essa dupla enfrenta criaturas mágicas em diferentes situações e locais. O enredo nos leva a uma odisséia onde eles estão dispostos a desvendar os mistérios que acontecem em cada cidadezinha onde passam, o que por alguns minutos me deu a impressão de estar lendo um livro de contos, pois em cada uma dessas cruzadas, os personagens, ambiente e situações se alternavam, mas já no último capítulo todas situações separadas tem um propósito que a escritora amarra muito bem no desfecho e que dá um final surpreendente e com um gostinho de "quero mais". Já digo logo, esse livro daria fácil uma série de livros… já queremos! ;) Há muitos momentos cômicos como também aborda de forma bem colocada o preconceito religioso, o sofrimento do povo que carece do básico para sobreviver e mesmo assim segue com esperança, fé e alegria de viver. Não há como ler esse livro e não lembrar do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, mais ainda do filme adaptado e dos famosos Chicó e João Grilo, e de forma magistral em expor o regionalismo toda a escassez de uma região e sofrimento de um povo e mesmo assim ser uma leitura com momentos cômicos e bem elaborados.


" ― O ser humano quer ter direito às suas crenças e ao mesmo tempo desmerece a crença alheia."


" ― Deus disse, com ar de divindade. ― As religiões são mapas diferentes para se chegar ao mesmo lugar, mas cada um pode tomar o caminho que quiser para alcançar o céu. A verdade é que não é nem mesmo necessário seguir uma religião ou acreditar em qualquer coisa divina; todo aquele que pratica a bondade há de chegar lá."


"o povo do sertão é miserável de riqueza, mas sempre foi farto de espírito"


"Não sentia medo de seu ausente pai biológico, apenas raiva. Como muitos outros filhos daquele grande país chamado Brasil"


Em cada início de capítulo, há um trecho de uma música típica do nordeste que tem um certo paralelo dos acontecimentos que virão a seguir, e já digo logo que o último capítulo foi meu preferido! Me veio a cabeça o final de Auto da Compadecida com uma mistura do final do filme Tenacious D onde Jack Black e o Demônio (interpretado por Dave Grohl) fazem um duelo de guitarra.

"Repente é poesia, e não há maior poeta que o criador. - O diabo foi o primeiro a sacudir o pandeiro, feito uma cascavel, com sorriso confiante de gente sabida."


Também no decorrer de todo o livro fiquei tentando imaginar em que época se passa a história, poderia muito bem ser de décadas atrás ou de agora, mas um trecho "entregou o ouro": " Acharam um grupo que discutia fervorosamente os motivos por trás da renúncia de Jânio Quadros ― mal sabiam eles que a teoria mais aceita no meio sobrenatural era de que o então presidente havia sido possuído e obrigado a fazê-lo". Jânio Quadros renunciou em 1961, talvez pela sua alegação que a pressão de "forças terríveis" o obrigava a renunciar, tenha sido uma boa deixa para a inclusão da frase de Maga Josefa rs. De todos os livros lidos em 2019, sem dúvida "O auto da maga Josefa" que comecei no final de Dezembro/19 e terminei no comecinho de 2020, foi um dos melhores livros do ano! Para quem quiser, está disponível em formato digital na Saraiva ou Amazon, mas com um precinho bem camarada! Então não é desculpa! Esperamos que logo logo possa ser vendido em livros físicos.


Até a próxima leitura!


Aqui a "trilha sonora" que está presente em cada capítulo! MÚSICAS NO LIVRO

  • João do Vale - O Bom filho à casa torna

  • Luiz Gonzaga - Caçador

  • Carmélia Alves - Pé de Serra

  • Sebastião do Rojão - Chorando por Alguém

  • Sá e Guarabyra - Sobradinho

  • Sivuca - Fogo Pagou

  • Maria Bethânia - Encateria

  • Dominguinhos - Pedras que cantam

  • Jackson do Pandeiro - Retirante

  • Humberto Teixeira - A Estrada do Bosque

  • Zeca Baleiro - Heavy Metal do Senhor


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