Dialogando com a própria história - Paulo Freire e Sérgio Guimarães
- Jacque Spotto

- 8 de fev. de 2022
- 2 min de leitura
Esse livro tem uma particularidade, ele é um diálogo, e desse diálogo entre Paulo Freire e Sérgio Guimarães eles refletem sobre o tema e nos faz refletir também a partir de suas histórias.

Tanto Paulo quanto Sérgio buscam através da memória dos acontecimentos de suas vidas refletir assuntos importantes tanto da época anterior ao diálogo quanto no presente (momento da conversa entre os dois). No livro Paulo fala um pouco do seu exílio no Chile, meu chamou a atenção sobre o diálogo que teve com os filhos quando recebeu a proposta para morar nos Estados Unidos. Ele não aceitou a proposta de imediato, primeiro teve uma reunião com sua família. Ele e a esposa não tomaram a decisão e simplesmente levaram os filhos, eles buscaram saber se eles queriam ir, os dois pequenos aceitaram, as moças não. Nesse caso, mesmo com as dificuldades que iriam ter, eles consentiram a vontade das filhas, mas mesmo assim, depois de um tempo, depois da ida dos pais e irmãos elas voltaram atrás em suas decisões.
Aqui vemos como Paulo Freire pregava sobre o que escrevia não somente no trabalho, mas na sua vida, inclusive familiar. Ele entendeu as divergências de vontade de cada indivíduo, mesmo sendo seus filhos, onde a maioria poderia simplesmente demandar a autoridade. Achei esse momento muito significativo, porque como professora que fui e agora como mãe, às vezes, deixamos de abrir um diálogo aberto, de entendermos os pontos de vista de cada um, porque é mais trabalhoso e apenas ordenar é mais fácil. Dialogar, tentar compreender a posição do outro é mais complicado, exige esforço, leva tempo, paciência e empatia, o que a maioria não está disposta a fazer.
Essa passagem foi apenas um ponto de reflexão que tive sobre o livro, mas Paulo e Sérgio também falam um pouco da estadia de Paulo nos Estados Unidos sobre o racismo enraizado no país, e a eles se autointitularem um país democrático mas que o preconceito é imenso, não com toda a nação, é lógico, o que nos coloca a examinar não com uma visão generalista. Como também da estadia de Sérgio na França onde lecionou Civilização Brasileira na Universidade de Lyon.
Temas relativos à estadia de Paulo em Genebra, e também das memórias de Sérgio a respeito de seus primeiros trabalhos na área de comunicação, intimidação de autoridades no regime militar e de sua experiência como professor de Civilização Brasileira na Universidade de Lyon na França, vai nos envolvendo nessas passagens de suas memórias e é evidente como foi uma grande contribuição para o que eles são (eram até aquele momento). Mas algo singular que é evidente em todo o diálogo é que tudo que passaram está ligado não só a forma dialógica deles com o outro, mas deles com eles mesmos. Revisitar as memórias faz abrir uma reflexão com eles próprios, e consequentemente com quem os leem.
Espero conhecer mais de suas obras dialógicas!
Dialogando com a própria história
Autores: Sérgio Guimarães e Paulo Freire
Editora: Paz & Terra (Grupo Editorial Record)
Ano: 2021 - 2 ed.




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