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Tudo é Rio - Carla Madeira

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 21 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira, e que estreia! Onde a autora deu uma impecável fluidez, assim como o rio onde há momentos calmos como também há momentos de constante instabilidade. Cada momento é muito bem colocado que fica impossível parar de ler até chegar ao desfecho da história. Mesmo tratando de assuntos tão pesados, a escrita de Carla Madeira deixa a leitura mais leve por sua forma de escrever, ela consegue fazer interligações com as palavras, metáforas bem colocadas e a poetização do texto que me fez marcar o livro como quem marca os classificados rsrs.


Já nos primeiros capítulos do livro, a autora nos apresenta os principais personagens que irão permear toda a obra: Lucy, Dalva e Venâncio, e como cada uma de suas vidas irá entrelaçar em algum momento. Também nesses primeiros capítulos surge a situação mais dolorosa que, nós como leitores, já pensamos não haver solução para o casal Dalva e Venâncio diante tamanho ato desumano feito por ele.


Mas do que se trata o livro? É sobre o amor, ciúmes, perdão, família, relacionamento tóxico, luto, é sobre o fluxo inconstante da vida, sobre as atitudes de cada indivíduo diante uma situação extrema. Nós, como leitores, talvez já com uma visão contemporânea do mundo e da sociedade, principalmente da mulher, ficamos indignados com as atitudes dos personagens e temos a constante de nos colocar em seus lugares. Por exemplo: diante de um relacionamento abusivo, continuaríamos a insistir? Provavelmente não, por isso as atitudes de violência e de resignação diante do imperdoável nos causam tanto incômodo. Queremos mudar o pensamento do personagem, queremos que ela faça o que imaginamos ser o certo, mas esquecemos que cada ser humano é único, e cada um age da melhor forma possível para si. Há um capítulo que exemplifica muito bem esse pensamento:


"Dalva poderia tantas coisas se pudesse. Mas só pôde o que fez. Quem vê de fora faz arranjos melhores, mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê que o não dar conta ocupa tudo." (p. 133)

No livro, uma atitude que acreditamos ser imperdoável, onde o personagem afetado poderia agir de forma a buscar a justiça ou vingança, traça ações totalmente diferentes do esperado, e tais atitudes que nos deixa curiosos, e pensando: O que passa na cabeça de Dalva? Por que age de tal forma? Mas esquecemos que o personagem assim como uma pessoa, individualmente, tem suas formas de lidar com um problema.


No desfecho do livro, o que eu gostaria que acontecesse não aconteceu, e tem uma explicação simples: Eu não sou a personagem Dalva. Não tenho sua resignação e sua forma de ver o mundo e de lidar com certas atitudes que somente ela vivenciou. Muitas pessoas, e posso me incluir nesse grupo, não se viu satisfeito com tal atitude porque simplesmente é difícil se desvincular diante uma situação tão dolorosa. Mas esquecemos que pessoas semelhantes aos personagens existem, e que poderiam até mesmo agir da mesma forma ou parecida como está no livro.


O livro não é uma forma de romantizar relacionamentos abusivos ou de exaltar o amor incondicional de onde há amor tudo é perdoável, mas sim, como nossas vidas, assim como um rio, há momentos de águas calmas e agitadas e que assim como o rio, nossas vidas, a cada dia nunca são iguais. O que me fez lembrar do livro anterior que li "Rei Revés" de Evandro Affonso, onde ele parafraseia o filósofo Heráclito: "...não se entra duas vezes no mesmo rio". (p. 11). Cada personagem não é o mesmo nos primeiros capítulos em comparação aos últimos, assim como cada um de nós não somos os mesmos a cada minuto que passa, pois aprendemos e modificamos a cada momento nossa forma de pensar e agir.


Dá para viajar na filosofia e até mesmo dar uma conexão com o paradoxo do Navio de Teseu, não é mesmo? Mas esse eu vou deixar para outro dia.


Tudo é Rio

Escritor: Carla Madeira

Editora: Record

1º edição - 2121


Livro citado:

Rei Revés

Escritor: Evandro Affonso Ferreira

Editora: Record

1º edição - 2121


1 comentário


Marco Tulio Domingues Costa
Marco Tulio Domingues Costa
20 de fev. de 2024

Este já está na minha lista para as próximas leituras!

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