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Anatomia dos Mártires - João Tordo

  • Foto do escritor: Jacque Spotto
    Jacque Spotto
  • 20 de abr. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 8 de mai. de 2021

Anatomia dos Mártires é um livro que traz várias reflexões sobre a ideia de um mártir, através de um paralelo entre a trabalhadora do campo, Catarina Eufémia, morta em 1954 por um Tenente da GNR (Guarda Nacional Republicana) de Portugal e o cenário do personagem do romance que está inserido no início da crise europeia (2009) em Portugal.

E nesse plano de fundo histórico se encontra a ânsia de um jornalista lisboeta em ser reconhecido, assim, escreve um artigo um tanto quanto polêmico, a partir da entrevista do escritor de um livro biográfico que acabara de ser lançado sobre um homem que saltara de um edifício abraçado com seu manuscrito. Com essa entrevista, o jornalista (no livro ele não é nomeado) vê uma chance de impressionar seu editor, Cinzas, um velho comunista português, produzindo um artigo em que faz uma comparação do personagem do livro do biógrafo com a mártir comunista portuguesa, Catarina Eufémia, e de certa forma colocando o status de mártir e de vários outros em dúvida.

"Queria dar-lhe algo tão inesperado que lhe fosse impossível vetar a minha legítima ambição de ganhar um nome naquela casa". (p. 29)

A partir da publicação de seu artigo, ele passa a ter problemas com seu pai, um músico aposentado que vê no trabalho escrito pelo filho uma busca inescrupulosa e reacionária de ganhar notoriedade através da minimização da luta dos integrantes comunistas da época ditatorial, pois foram eles, junto com a população, que lutaram para instaurar a democracia no país. Seu artigo também causa uma comoção para algumas pessoas, acarretando ao jornalista uma certa paranóia em acontecimentos que passam a rodeá-lo.

"... o leitor dos jornais, será levado a concluir que a redução da importância de um fato ou acontecimento: oblitera-se a realidade para fugir a uma verdade desconfortável". (p. 85)

O livro traz a questão da responsabilidade de uma pessoa em tratar de assuntos que possam induzir outras ao negacionismo, ainda mais de uma parte sofrível como a Ditadura Salazarista em Portugal. Não que um bom jornalista não deve expor a verdade, mas ela deve vir acompanhada de um pensamento crítico e não somente uma forma de polemizar sem trazer nenhum benefício. Não simplesmente recortar um fato que convêm e distorcê-lo para mera concordância do que se precisa. O que foi o que o jornalista fez, ele não conhecia a história de Catarina, como também não tinha nem mesmo lido o livro do biógrafo o qual baseou seu artigo.

"... sabia somente o que precisava saber para conseguir, com o meu artigo, desmanchar a realidade e transformá-la de acordo com a minha conveniência". (p.114)

O livro não é um manifesto a favor de nenhum partido político ou ideológico, mas ele elucida como um grupo pode se utilizar de um fato ou mais precisamente, de uma pessoa específica e criar ao seu redor um mito, um ícone, uma ação heróica a ser exaltada e glorificada. No próprio livro, o jornalista, após escrever o artigo, se vê pensativo e passa a fazer pesquisas sobre a história de Catarina, e esses livros que ele utiliza para suas pesquisas também são os mesmos em que o próprio escritor João Tordo utiliza em sua Bibliografia de "Anatomia dos Mártires''. João Tordo fez diversas investigações com professores e também entrevistas para buscar informações do que teria acontecido a Catarina e também um pouco de sua vida pessoal, que é algo que praticamente só se sabe pelos relatos de alguns conhecidos da época.


No romance, o jornalista se vê rodeado de informações desencontradas, e meias-verdades que se chocam com relatos e com as notícias do meio de comunicação da época, um meio de comunicação que era praticamente administrado pelo Governo do Estado Novo. Então, não se sabe ao certo se algumas informações foram alteradas, tanto pelo Regime Ditatorial quanto pelo Partido Comunista, ambos tentando utilizar do fato ocorrido, de um lado para denunciar o Governo Ditatorial Salazarista e do outro lado para amenizar o crime ocorrido contra Catarina. Há no mínimo em torno de 50 páginas que trata somente da História da trabalhadora.

"Não se trata de Esquerda ou Direita, trata-se da questão da clandestinidade e da maneira como a informação circula nessas condições". (165)

De todas as formas, com alguns fatos obscuros ainda em torno do ideal heróico de Catarina, há de se afirmar que era uma mulher que trabalhava no campo, que tinha 3 filhos e buscava junto aos outros trabalhadores uma condição melhor de salário para poder ajudar no sustento da família e que foi morta covardemente pelo tenente da GNR. Mas o que um ideal pode alterar na biografia de uma pessoa? que de mãe, esposa e trabalhadora, torna-se, a partir do momento de um crime, um símbolo de luta e se transmuta em uma pessoa totalmente forte e livre de medos, como uma líder que o Partido necessitava na época e ainda hoje é um dos símbolos da luta do povo rural. O que separa a pessoa do mártir? E ainda mais, o que faz dela, e não tantos outros que também foram mortos de maneira cruel pelo Regime, escolhida para se tornar esse ícone?


Qualquer um que se apossa das lembranças de uma pessoa, e se ancora a ela para exaltar uma forma de Ideologia, religião, política ou qualquer outro grupo tem o direito a isso? No caso de Catarina, ela nem mesmo pôde ser enterrada em sua cidade inicialmente, somente depois da queda do regime ditatorial que ela foi transferida de Quintos para Baleizão. No romance, o jornalista tem uma conversa com um morador da cidade de Catarina e ele relata como o marido da mártir, Carmona, se sentiu na época, não há como afirmar se é um relato real ou apenas um diálogo romanesco:

"O Carmona dizia sempre que, a ele, nunca lhe perguntaram nada. Eu, cá para mim, quando for desta para melhor, quero ser enterrado ao lado da minha mulher. O Carmona nem isso podia, porque a mulher está enterrada em Baleizão, naquela sepultura com uma lápide que tem uma foice e um martelo e fala das lutas e dos comunistas e dos fascistas, sem uma palavra para a família. Não fala dele nem dos filhos, de nada do que interessa às pessoas enquanto estão vivas. Digam-me lá: você gostava de ser enterrado ao lado de uma coisa daquelas?" (p.202)

A importância coletiva para um estado de bem maior seria uma justificativa para tal ato? Algo que deva ser lembrado talvez não deva ser desmistificado para não ruir uma base que foi construída para uma causa que significa acabar com algo que aflige uma sociedade? Não que um mártir não tenha feito algo que deva ser exaltado, mas toda causa necessita de um ícone para não ser esquecido?


Só sei que terminei esse livro com mais dúvidas do que quando comecei rsrsrs. Muito interessante esse contexto histórico que permeia a vida do personagem, nos faz ficar também curiosos por mais informações sobre essa figura portuguesa que se tornou um símbolo de luta no país. Há poemas, músicas, livros a seu respeito, e mesmo assim paira algumas questões que se perderam na própria história e talvez nunca conseguiremos recuperar.


Anatomia dos Mártires

João Tordo

Editora: Leya

Coleção: Novíssimos

2013


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